


A conjugação do verbo repetir. Quando foi lançado em 2004, na Xbox, Kingdom Under Fire foi aclamado tanto pela crítica como por toda a gente que o experimentava. A mestria no conjugar da componente estratégica com elementos de acção captava a vontade de qualquer um que o experimentasse. Passado algum tempo, ainda na mesma consola, saiu a sua sequela, Heroes, também desenvolvido pelos coreanos da Phantagram, e também uma obra bastante boa dentro do seu género. Agora, já na segunda geração de consolas Microsoft, chega ao público Kingdom Under Fire: Circle of Doom. Infelizmente, a obra da Blueside é em tudo diferente das entregas mais antigas da série. Infelizmente, é também em tudo inferior às outras entregas da série. Um passo atrás em todo o trabalho que havia sido feito, um passo tão largo que coloca Circle of Doom em terrenos negativos.
Tudo tem início com o jogador a escolher uma de entre cinco personagens à nossa disposição, cada uma delas com características próprias, seja arcar com armamento de grande porte, domar o uso da magia ou "bailar" em frente aos adversários graças a uma invejável flexibilidade. Não há uma estória propriamente dita, e em vez disso temos cenários de livre exploração, onde poderemos encontrar "Idols", entidades onde nos é permitido trocar, vender, comprar e guardar os nossos pertences. Porém, a característica mais importante destas estátuas de generosas dimensões é dar-nos a possibilidade de dormirmos e, consequentemente, de sonharmos.
Durante os sonhos, podemos entabular conversa com várias personagens para que estas nos forneçam missões que têm lugar nos cenários reais, ou seja, nos cenários por onde viajamos antes de adormecer. Infelizmente, estas missões acabam inevitavelmente por nos obrigar a ir do ponto A até ao ponto B para ceifar a vida a hordas e hordas de inimigos e, ocasionalmente, ter um encontro imediato com um Boss. Há algo de muito disruptivo neste esquema de jogo, pois o constante viajar entre os estados de acordado e adormecido não nos motiva a continuar de arma em riste. Cedo acabamos por sentir que estamos a matar apenas e só por matar, a combater uma luta que não nos diz o mínimo respeito.
E se neste ponto a vontade de combater já estava reduzida a muito pouca, o sistema de combate incluido na sua obra não ajuda em nada. Esquecendo a estratégia e a acção algo variadas dos outros títulos da saga, Circle of Doom assenta totalmente no género Hack & Slash, o que neste caso é sinónimo de carregarmos incessantemente nos mesmos botões. Como seria de esperar, não demora muito até que a monotonia se apodere do nosso estado de espírito, o que aliado à falta de um fio narrativo é a conjuntura perfeita para nos fazer perder a vontade de ver o que espreita atrás da esquina, que é como quem diz, prosseguir com a aventura.
Quando eu disse que os botões são pressionados incessantemente, isso deve-se aos constantes ataques dos inimigos. Não falo em vários ataques por inimigos, mas sim por ondas de inimigos que nos atingem como a força do mar contra a barra, asfixiando-nos os movimentos de tal maneira que, por vezes, os controlos deixaram de responder às nossas ordens, o que tornou a experiência de jogo ainda mais frustrante.
Tanta matança tinha que resultar em algo proveitoso para o jogador, e neste caso, e à semelhança dos jogos do género, a recompensa é subir o nível da nossa personagem. Ao recebermos tal distinção, recebemos também uma série de pontos que podem ser distribuídos por três categorias: energia, habilidade e sorte. Uma tarefa que à partida parece ser fácil, acaba escondendo uma complexidade enorme, uma vez que é certo que precisamos de energia para não desfalecermos em combate, porém, cada ataque que a nossa personagem faça gasta uma porção da barra da habilidade, portanto, caso não façam uma distribuição o mais racional possível, o mais certo é ficarem com os movimentos apeados no meio de batalhas mais longas. Para concluir este capítulo, impera explicar os motivos de não quererem deixar de distribuir alguns pontos pela categoria da sorte. Alguns inimigos derrotados na batalha deixam para trás itens passíveis de serem coleccionados por nós, ora, como o próprio nome indica, a sorte vai determinar o aparecimento de itens mais valiosos ou que mais proveito nos poderão dar no acto da sintetização.
A sintetização, como o próprio nome indicia, trata-se de unir duas armas numa só. Por exemplo, é possível fundir uma arma de ataque com uma de defesa, ou duas armas do mesmo género, tornando duas armas medianas numa mais forte. Num nível mais avançado, será ainda possível acrescentar uma habilidade a esta equação. Felizmente, durante o processo, os "inventores" poderão monitorizar o processo de confecção, chegando a ser possível antever qual será o resultado final antes de desperdiçar tempo, bens e dinheiro. A vossa imaginação é o limite para as vossas criações, porém, convém não esquecer que este processo tem um custo para a vossa carteira, sendo que, quantos mais elementos adicionarem à vossa "receita", maior será o custo.
A característica que salva Kingdom Under Fire: Circle of Doom de ser um desastre total é a possibilidade de vivermos estas aventuras na companhia de três amigos através do Xbox Live, e aqui, convém frisar bem que o modo cooperativo apenas está disponível se tiverem a vossa Xbox 360 ligada ao Live com uma conta Gold activa. Felizmente, podem optar por combater ao lado de estranhos ou em salas privadas, assim como entrar em salas de jogo que sejam compostas por jogadores que tenham as personagens em níveis idênticos aos vossos.
O grafismo tem alguns pormenores interessantes, capazes de nos fazer parar e observar aquilo que temos diante dos nossos olhos. Todavia, seja em níveis inspirados em florestas, em áridas planícies de um qualquer deserto ou estradas ladeadas por lava, não há a variedade necessária para esses pormenores passarem disso mesmo e darem origem a cenários bem construídos, capazes de oferecer a Circle of Doom uma faceta gráfica bem conseguida. Outro ponto que obrigatoriamente merece destaque dentro deste capítulo é o desenho das personagens. A mão que as traçou estava inspirada mas, infelizmente, os tais ataques massificados transformam criaturas únicas num amontoar de banalidade. Sendo assim, os únicos que se mantêm fiéis ao seu traço imponente são os boss's. Além de terem um estrutura que desafiou o tamanho do ecrã do nosso televisor, este intimidam pelo seu ar feroz, intimidam pela palete de cores utilizadas, e intimidam por, involuntariamente, somarmos tudo aquilo que nos amedronta naquelas criaturas e ganharmos consciência que, teoricamente, é o mais perto que estaremos do leito da nossa morte.
As várias músicas que compõe Circle of Doom dão o mote às batalhas exaustivas mas, à semelhança das batalhas em si, não demora muito até que a repetição dê o ar da sua graça, transformando a audição em mais um sentido saturado por mais do mesmo. Um irritante receio de apostar em inovações e de dar aos jogadores, àqueles que esperaram largos meses pela nova entrega de uma série que lhes era querida, que me era querida, aquilo que eles tanto queriam. Queríamos uma banda sonora decente, capaz de nos empolgar, algo que não fosse uma decepção pegada, pegada às vozes que também decepcionam, aliás, quase que nem existem.
Não podíamos estar mais descontentes pelo caminho optado pela produtora de Kingdom Under Fire: Circle of Doom. Escolhas goradas, trabalho inacabado, uma entrega para esquecer, uma entrega de onde só se aproveita o modo cooperativo, e mesmo esse não pode ser apreciado na companhia de um amigo na mesma consola, tem que ser na companhia de alguém que esteja em Espanha, na China ou em Marrocos. Por favor, por respeito aos amantes da saga Kingdom Under Fire, repensem aquilo que vão fazer na sequela, não conspurquem mais um nome que merecia outra sorte!!!!

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